Segunda-feira, Maio 18, 2009

Artimanhas Poéticas

ARTIMANHAS POÉTICAS 2009


O festival literário Artimanhas Poéticas será realizado nos dias 12 e 13 de junho, no Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro, com curadoria do poeta Claudio Daniel. O evento, que contará com a participação de críticos literários, poetas jovens e consagrados e editores de revistas, incluirá palestras, debates, recitais, lançamentos, performances musicais e de poesia sonora.


Dia 12 de junho, sexta-feira:

14h

Palestra: A crítica literária reflete a criação poética contemporânea?
Com Luiz Costa Lima


16h

Debate: As revistas literárias definem o momento literário?
Claudio Daniel, André Vallias, Márcio-André, Sérgio Cohn


Lançamento: revistas Confraria, Errática e Zunái


18h

Recital: Virna Teixeira, Camila Vardarac, Leonardo Gandolfi, Lígia Dabul, Luiz Roberto Guedes, Luís Serguilha, Rodrigo de Souza Leão, Izabela Leal.


Local: Rua Luís de Camões, 30 - Centro - Rio de Janeiro - RJ


Dia 13 de junho, sábado:

14h

Debate: Como está a poesia brasileira hoje? Com Claudio Daniel e Paulo Henriques Britto


15h
Lançamentos de livros de poesia (títulos do selo Arqueria, da Lumme, Azougue e de outras editoras.)



16h

Recital: Claudio Daniel, Diana de Hollanda, Thiago Ponce de Moraes, Gabriela Marcondes, Ismar Tirelli, Pablo Araújo, Sebastião Edson Macedo, Victor Paes, Ronaldo Ferrito


17h

Show de Tavinho Paes e Arnaldo Brandão


17h30

Performance poético-polifônica para voz, violino e processamento eletrônico, com Márcio-André


Mostra de videopoesia de Gabriela Marcondes


19h

Palestra de Richard Price, com participação de Virna Teixeira


Local: Real Gabinete Português de Leitura, rua Luís de Camões, 30 - Centro - Rio de Janeiro - RJ

Sábado, Março 28, 2009

COLEÇÃO POESIAS DE ESPANHA






Os 70 anos do encerramento da Guerra Civil Espanhola, um dos episódios mais cruéis e de maior impacto do séc. XX, serão lembrados no dia 1º de abril de 2009. Para marcar a data, a editora Hedra lança, no dia 3 de abril na Casa das Rosas, a coleção Poesias de Espanha: das origens à Guerra Civil, uma antologia poética em quatro volumes que reúne as literaturas galega, espanhola, catalã e basca, todas elas profundamente marcadas pela Guerra Civil Espanhola.

Os volumes que serão lançados, intitulados Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca, todos com o subtítulo “das origens à Guerra Civil”, reúnem uma seleção de poemas e autores representativos dos principais períodos históricos de cada literatura, desde suas origens como manifestação literária, a partir do séc. XII, até a Guerra Civil Espanhola, encerrada em 1º de abril de 1939.

O corte temporal, além de abarcar as origens da poesia de cada uma das línguas, destaca a importância da Guerra Civil Espanhola para as quatro literaturas, simultaneamente como elemento de ruptura e fator de convergência, na medida em que representa o desaparecimento de toda uma geração de escritores perdida na guerra ou no exílio.

Com organização e tradução de Fábio Aristimunho Vargas, a antologia conta ainda com um amplo aparato crítico: uma apresentação geral à coleção seguida dos prefácios específicos para cada língua, notas biobibliográficas dos autores e poemas, um quadro sinótico, fonética sintática e guia comparativo das ortografias portuguesa, galega, castelhana, catalã e basca.

Entre os autores reunidos figuram nomes tão diversos como Martim Codax, Rosalía de Castro, Manuel Antonio (Poesia galega), Gonzalo de Berceo, Garcilaso de la Vega, Federico García Lorca (Poesia espanhola), Ausiàs March, Jacint Verdaguer, Bartomeu Rosselló-Pòrcel (Poesia catalã), Bernat Etxepare, José María Iparraguirre, Lauaxeta (Poesia basca), entre vários outros, além de composições e cantigas de origem popular.

O livro dedicado à poesia catalã foi premiado pelo Institut Ramon Llull, entidade responsável pela projeção no exterior da língua e da cultura catalãs, com sede em Barcelona, com a concessão de apoio à tradução em 2009.

SOBRE O ORGANIZADOR

Fábio Aristimunho Vargas é professor, escritor e advogado. Cursou direito e letras na USP. É mestre em direito internacional pela USP, especialista em direito internacional privado pela Universidad de Salamanca e especialista em estudos bascos pela Fundación Asmoz de Eusko Ikaskuntza e pela Universidad del País Vasco. Traduziu para o português os livros Atlas: Correspondência 2005--2007 [Edicions sèrieAlfa, 2008], do poeta valenciano Joan Navarro e do artista plástico catalão Pere Salinas; La entrañable costumbre [Mantis Editores, 2008], do mexicano Luis Aguilar, entre outros. É co-organizador e tradutor ao castelhano da coletânea de jovens poetas Antologia Vacamarela: português, espanhol e inglês [Edição dos autores, 2007]. Mantém o blogue medianeiro.blogspot.com

DEBATE E RECITAL

Paralelamente ao lançamento haverá um debate e um recital quinquelíngue de poesia. O debate abordará o tema “O impacto da Guerra Civil nas literaturas galega, espanhola, catalã e basca”. Dele participarão Estebe Ormazabal, professor de língua basca; Miguel Afonso Linhares, linguista e professor de espanhol em Roraima; Fábio Aristimunho Vargas, organizador e tradutor da coleção Poesias de Espanha, e Paulo Ferraz, poeta e editor.

No Recital Quinquelíngue, escritores convidados farão leituras de poemas em galego, castelhano, catalão e basco, com as respectivas traduções ao português. Participarão das leituras, entre outros escritores, Alfredo Fressia, Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Dirceu Villa e Ruy Proença. Ao final, serão apresentados vídeos com canções e baladas antigas.

APOIO

Institut Ramon Llull

Casa das Rosas

DIVULGAÇÃO

Euskal Etxea Brasil

Associação Cultural Catalonia

Coletivo Vacamarela

Instituto Cervantes

SERVIÇO

Coleção Poesias de Espanha, em quatro volumes: Poesia galega: das origens à Guerra Civil, Poesia espanhola: das origens à Guerra Civil, Poesia catalã: das origens à Guerra Civil e Poesia basca: das origens à Guerra Civil, editora Hedra, 2009.

Organização e tradução Fábio Aristimunho Vargas

* Lançamento: dia 03 de abril, a partir das 19h
* Debate: O impacto da Guerra Civil nas literaturas galega, espanhola, catalã e basca.
* Recital quinquelíngue com a participação de escritores convidados.

Casa das Rosas

Av. Paulista, 37 -Bela Vista – São Paulo
Fone: 11 3285-6986/ 3288-9447
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 22h. Sábados e domingos, das 10h às 18h.

INFORMAÇÕES À IMPRENSA

Marcele Rocha

11. 9417 – 0169 | 11. 3097 – 8304

marcele@hedra.com.br

Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Notas ao contemporâneo I

TABACARIA

(...)

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.

(...)


[Álvaro de Campos. In: Obra Completa]

Domingo, Dezembro 21, 2008

Herberto Helder I

TRÍPTICO


I


Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.

Herberto Helder II

II


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

Herberto Helder III

III


Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
- Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos - meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.

E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.

Ela explica tudo, e o vir para mim -
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
- é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
- E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.


[Herberto Helder. In: Ou o poema contínuo]

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Poema múltiplo - SIMPOESIA 2008

Abaixo se lê o poema Gopala, escrito sobre as mesas do restaurante homônimo, em São Paulo, durante o SIMPOESIA, por diversas mãos - Delmo Montenegro, Glauce Soares, Ligia Dabul, Izabela Leal, Pablo Araujo e Thiago Ponce de Moraes.
.
GOPALA
.
sob
a carcaça fétida
do último Ganesha
— almoçamos —
a carne do vazio
do zero
em si
— a constelação primeira —
a hora vara
a primavera
— mas é São Paulo — era
outubro ainda —
nada
— a estupidez de
nossas peles —
desfazendo-se
— almoçamos —
como o verme que
dança
sob
a sílaba apsara
.
alguém reclama da
falta de carne
sim, uma feijoada de soja
e um puro perímetro claro
.
Shiva dança sobre
o vazio
sob
as reclamações
com fome
Gandhi olha de soslaio
ninguém sabe mais
onde está outubro
nem Ganesha
nem o zero
nem São Paulo
nem os vermes
Gandhi aponta a saída
a porta fechada
nenhuma palavra
a estupidez
sob
a sílaba apsara
nenhum verso
na dobra desta trágica
mesa
Shiva interrompe
reclamações
ou qualquer dança
.
nem a leve chuva lá fora
sacia a fome que sinto de você,
boca infinita a devorar a primavera
onde não estamos
.
devorados
pela constelação primeira
— almoçamos —
devorados pela última pele dos vermes
— última carcaça —
devorados
pela infinita fome dos deuses
— desfazemo-nos
no puro perímetro claro —
hora-vara
em torno de Gopala
— o verso zero
.
São Paulo, outubro de 2008.

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Galeria Giacometti V: Figura alta


Alberto Giacometti, 1949

Sábado, Outubro 25, 2008

Fotos do SIMPOESIA e o livro FOMES DE FORMAS

Amigos,

Como está evidente, houve um grande evento de poesia brasileira contemporânea - do qual participaram 50 poetas - que ocorreu graças aos esforços de pessoas como o Claudio Daniel, a Virna Teixeira, o Antônio Vicente Pietroforte, o Frederico Barbosa, o Donny Correia, e inumeráveis outros que auxiliaram e se propuseram a organizar um evento desse porte.

Fico feliz de ter sido um dos covidados e por ter podido, com auxílio do Ministério da Cultura, participar deste memorável encontro, em que poetas de gerações distintas tiveram a oportunidade de se comunicar e de trocar impressões sobre poesia e arte - o que finda por ser o mesmo.

Agora coloco aqui um link para algumas fotos do evento (e do "pós-evento"), a fim de que se possa ter noção do quanto foram interessantes os dias em que houve o SIMPOESIA, o quanto esse evento atraiu de interessados por poesia contemporânea de todo o Brasil: SIMPOESIA 2008.

Outra coisa que me deixou muito feliz foi o convite - um pouco anterior - para participar do livro Fomes de Formas, que conta com poemas meus, de Paulo Scott, Marcelo Montenegro, Delmo Montenegro, Marcelo Sahea, Caco Pontes, Luís Venegas e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte.

Quem tiver interesse no livro, pode entrar em contato com os editores/organizadores pelos e-mails do Antonio Vicente Pietroforte - avpietroforte@hotmail.com - e do Vanderley Mendonça - vanderleymeister@gmail.com.

As edições do selo Demônio Negro são belíssimas.


Continuemos.

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

SIMPOESIA 2008

Confiram o site do SIMPOESIA. Lá será possível conhecer os convidados, a programação e os lugares onde se realizarão mesas, performances, recitais e lançamentos: SIMPOESIA 2008.


Até lá!

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Fomes de Formas e SIMPOESIA 2008

Amigos,
Na semana que entra, estarei em São Paulo, com apoio do MinC, para participar do evento SIMPOESIA 2008. Quem estiver por lá no dia 11, poderá ir ao evento Vocabulário, em que será lançado o livro Fomes de Formas, do qual participo com outros poetas.
No sábado, dia 18, me apresento no Museu da Língua Portuguesa e relanço o Imp..
Dia 11, a partir das 19h00, o evento Vocabúlario, com poesia, teatro e música, e o lançamento dos livros:
A Letra da Ley - Glauco Mattoso
Concretos e Delirantes - Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
Fomes de Formas - Paulo Scott, Marcelo Montenegro, Delmo Montenegro, Marcelo Sahea, Thiago Ponce de Moraes, Caco Pontes, Luís Venegas, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte.
Local: Barco - Rua Dr Vírgilio de Carvalho Pinto nº426 - São Paulo
E... SIMPOESIA 2008 (Simpósio de Poesia Contemporânea)
Organizado pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, o I Simpósio de Poesia Contemporânea (Simpoesia 2008) acontecerá entre os dias 14 e 18 de outubro de 2008. O evento contará com a presença de 50 poetas brasileiros, de diferentes regiões do país, incluindo autores já reconhecidos, como Claudia Roquette-Pinto, Roberto Piva, Glauco Mattoso e Frederico Barbosa, e também poetas jovens.

Recitais poéticos, performances, palestras e debates acontecerão na USP, na Casa das Rosas, no Museu da Língua Portuguesa e na Academia Internacional de Cinema, dentro da programação do evento. Haverá também shows musicais, apresentações de videopoesia e de poesia visual. Todas as atividades serão gratuitas para o público.

A divulgação será feita pela assessoria de imprensa da Casa das Rosas, e a coordenação geral do evento está aos cuidados dos poetas Virna Teixeira e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte.
Virna Teixeira, poeta e tradutora, publicou os livros de poesia Visita (2000) e Distância (2005) pela editora 7 Letras e os livros de tradução Na Estação Central (UnB) e Ovelha Negra (Lumme) de poesia escocesa. Foi curadora, junto com Claudio Daniel, do festival internacional de poesia Tordesilhas, em 2007.

Antônio Vicente Seraphim Pietroforte é poeta, romancista e doutor em Semiótica e Lingüística pela Universidade de São Paulo (USP), onde leciona. Publicou, entre outros livros, o romance Amsterdã SM (2007), o de poesia O retrato do artista quando foge (2007) e o de semiótica Análise do texto visual / A construção da imagem (2007).

Equipe de apoio: Nicole Cristófalo e Natália Guirado.
Poetas convidados:

a) São Paulo:

Adriana Zapparoli, Ademir Assunção, Ademir Demarchi, Álvaro Faleiros, Claudio Daniel, Claudio Willer, Contador Borges, Daniela Ramos, Danilo Bueno, Donny Correia, Edilamar Galvão, Eduardo Lacerda, Élson Fróes, Érica Zíngano, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Greta Benitez, Hélio Néri, Horácio Costa, Lúcio Agra, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Chagas, Marcelo Montenegro, Marcelo Tápia, Michel Sleiman, Mônica Rodrigues da Costa, Neuza Pinheiro, Paulo de Toledo, Rui Mascarenhas, Roberto Piva, Tatiana Fraga, Virna Teixeira, Zho Bertolini

b) Outros estados:

Alckmar Luiz dos Santos (SC), Ana Maria Ramiro (DF), André Dick (RS), Claudia Roquette-Pinto (RJ), Delmo Montenegro (PE), Eduardo Jorge (MG), Eliana Borges (PR), Izabela Leal (RJ), Leonardo Gandolfi (RJ), Lígia Dabul (RJ), Marcelo Sahea (DF), Pablo Araújo (RJ), Ricardo Aleixo (MG), Ricardo Corona (PR), Ruy Vasconcelos (CE), Thiago Ponce (RJ), Victor da Rosa (SC)

c) Buenos Aires:

Camila do Valle (Fundação Centro de Estudos Brasileiros)

EDITORAS CONVIDADAS: Lumme, DIX, Demônio Negro (os estandes ficarão na USP)

PROGRAMA:

A) NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO:

I Seminário de Lingüística, Semiótica e Análise da Literatura
Dia 14 de outubro, terça-feira,
14h
Debate: Semiótica e estudos da literatura: alguns diálogos

Diana Luz Pessoa de Barros (USP)
Norma Discini (USP)
Susanna Busato (UNESP, São José do Rio Preto)

15h
Re-visão de Haroldo de Campos, palestra de Claudio Daniel

16h
Dedo na ferida – Certa poesia contemporânea, palestra de Frederico Barbosa

18h
Recital:
Claudia Roquette-Pinto
Horácio Costa
Delmo Montenegro

Dia 15 de outubro, quarta-feira

14h
Debate: Poéticas do recorte: o esgarçamento das palavras e dos afetos
Ude Baldam (UNESP)
Maria Adélia Menegazzo (UFMS)
Claudio Daniel (Casa das Rosas)

15h
Poesia contemporânea: diversidade e confluência, palestra de André Dick

18h
Recital:
Eduardo Jorge
André Dick
Ademir Assunção

Lançamento: revista Coyote.

Dia 16 de outubro, quinta-feira

14h
Debate: A construção do limiar: questões de oralidade e performatividade na literatura
Antonio Vicente (USP)
Roberto Zular (USP)
Marcelo Tápia

15h
Construção, crítica e reconstrução do cânone literário, palestra de Horácio Costa

18h
Recital:
Daniela Osvald Ramos
Marcelo Montenegro
Zhô Bertolini
Hélio Neri

Dia 17 de outubro, sexta-feira
14h
Debate: A substância segundo Guimarães Rosa
Luiz Tatit (USP)
Olga Coelho (USP)
Marcelo Chagas

15h
Quem tem medo de João Cabral?, palestra de Leonardo Gandolfi

18h
Recital:
Érica Zíngano
Danilo Bueno
Leonardo Gandolfi

Todos os eventos do SIMPOESIA realizados na USP terão lugar no prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, sala 226.

B) Casa das Rosas:

Dia 14 de outubro, terça-feira

19h
Recital:
Frederico Barbosa
Claudio Daniel
Virna Teixeira
Glauco Mattoso
Elson Fróes
Neuza Pinheiro
Tatiana Fraga

Lançamento: livros Espelho, de Tatiana Fraga, e Pele & Osso,, de Neuza Pinheiro.

Exposição de poesia visual: Ricardo Corona, Marcelo Sahea, Elson Fróes, Delmo Montenegro

Dia 15 de outubro, quarta-feira

17h
Mostra de videopoesia (com trabalhos de Eduardo Jorge)

19h
Debate: A poesia na era digital. Com Eduardo Jorge, Lúcio Agra, Elson Fróes. Mediação: Sheila Maués.

Dia 16 de outubro, quinta-feira

19h
Debate: Poesia imaginativa ou A subversão do real. Com Roberto Piva, Claudio Willer e Claudio Daniel.

Dia 17 de outubro, sexta-feira

19h
Recital:
Ademir Demarchi
Carol Marosssi
Luiz Roberto Guedes
Ruy Vasconcelos
Ana Maria Ramiro
Izabela Leal
Lígia Dabul

Lançamento: Passeios na floresta, de Ademir Demarchi, e Yumê, de Claudio Daniel

21h30
Audioclip Halbat Arraqs/Pista de Dança, de Michel Sleiman.
Show de música e poesia com Ricardo Aleixo, Ricardo Corona, Lúcio Agra, Marcelo Sahea;

Dia 18 de outubro, sábado

I Fórum PraLer - Prazeres da Leitura
O prazer da poesia em sala de aula
Será discutido o despertar do prazer de se ler poesia em sala de aula e outros ambientes propícios à leitura

10 horas
Palestra de Frederico Barbosa sobre o prazer da poesia na sala;

12 horas
Intervalo

14 horas
Cases, de 30 minutos cada
- Escola Municipal Isabel Ribeiro Leal Leite – Prof° Ângela Costa, Josimeire Nascimento de Oliveira Mendes e Miranilde Silva – “VERSOS SEM FRONTEIRAS”
- César Obeid – Cordelista
- Céline Lothiors – Pedagogia Profunda
- Debate.

C) Academia Internacional de Cinema:

Dia 18 de outubro, sábado
20h30: Recital da Tiger Tail: Adriana Zapparoli, Contador Borges, Eduardo Jorge, Horácio Costa, Virna Teixeira.

Lançamento: livro Cocatriz, de Adriana Zapparoli

D) Museu da Língua Portuguesa:

Dia 18 de outubro, sábado

16h
Recital com Álvaro Faleiros, Ricardo Aleixo, Claudio Daniel, Frederico Barbosa, Greta Benitez, Donny Correia, Pablo Araújo, Camila do Vale, Alckmar Luiz dos Santos, Marcelo Tápia, Mônica Rodrigues da Costa, Victor da Rosa, Edilamar Galvão, Tatiana Fraga, Michel Sleiman, Paulo de Toledo, Ruy Vasconcelos, Rui Mascarenhas, Eduardo Lacerda, Thiago Ponce de Moraes.

Lançamentos de livros de poesia de vários autores.

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

FLAP! Rio 2008 – Interferências

FLAP! Festival Literário Aberto ao Público


Período: 20 e 21 de setembroLocal: PUC – Rio - Marquês de São Vicente, 225, Gávea. Campus da PUC-Rio, Auditório del Castilho - 2º andar, Prédio RDC (Ed. Rio Datacentro) Mapa: http://www.puc-rio.br/sobrepuc/campus/mapa/index.html

ENTRADA GRATUITA


Organizadores: Leandro Jardim, Priscila Andrade, Thiago Ponce de Moraes
Colaboração: Clauky Saba, Diana de Hollanda, Ramon Mello e Vinicius Baião

Blog:
http://flaprj.wordpress.com/

Release do Evento

Heloísa Buarque de Hollanda, Viviane Mosé, Eucanaã Ferraz, Olga Savary e Paulo Henriques Britto estão entre os participantes desta edição carioca da FLAP!

Percorrerá a FLAP! 2008 o tema Interferências. A proposta é debater a (re) leitura que as novas tecnologias de comunicação, informação e mídia propõem à literatura hoje. Serão abordados temas polêmicos desde a urgência de ativismos vanguardistas até a renovação da eterna indagação sobre o que é arte trazida pelas revoluções do mercado independente.

Abertura: no primeiro dia a abertura fica a cargo do poeta Mano Melo. No domingo, o ator José Mauro Brant fará uma leitura de poemas de Garcia Lorca.

Saraus: Nos intervalos entre as mesas haverá saraus organizados por dois grupos de poesia do Rio de Janeiro: Movimento InVerso e Castelo de Palavras.

Filmes: A novidade desse ano é a exibição de curtas no fechamento de cada dia. "Por Acaso Gullar", de Maria Rezende e Rodrigo Bittencourt e "Procurando Drummond", de Rodrigo Bittencourt.

Realizada pela primeira vez em 2005, em São Paulo, a FLAP! chega neste ano à sua quarta edição – terceira carioca. O evento, que é gratuito e aberto ao público, propõe uma abordagem mais acessível e direcionada sobre polêmicas e tabus que envolvem a literatura contemporânea.
São organizadas mesas de debate com poetas, escritores, acadêmicos, editores e jornalistas.
Desde sua concepção, num clima que associa descontração e compromisso, a FLAP! se propõe a encarar sem reverencialismos a obra literária e seu processo de criação. É nesse sentido que a organização fala num contraponto com a muito celebrada Festa Literária Internacional de Parati (FLIP), onde o acesso às palestras é restrito aos que podem viajar até a cidade e pagar ingressos.

>>Veja a programação completa em http://flaprj.wordpress.com/programacao-2008/

Sábado, Agosto 23, 2008

Galeria Giacometti IV: O cão

Alberto Giacometti, 1957

Sexta-feira, Agosto 15, 2008

Um verso

And for all this, nature is never spent.


(Gerard Manley Hopkins. In: Poems)

Domingo, Agosto 03, 2008

Heráclito XLVI

A natureza de cada dia é uma e a mesma.


(Heráclito de Éfeso. In: Heráclito)

Segunda-feira, Julho 07, 2008

Galeira Giacometti III: Mesa surrealista


Alberto Giacometti, 1933

Sexta-feira, Julho 04, 2008

Schiller

O poeta, disse eu, ou é natureza ou irá procurá-la.



(Friedrich Schiller. In: Sobre poesia ingénua e sentimental)

Segunda-feira, Junho 23, 2008

Galeira Giacometti II: Homem e Mulher


Alberto Giacometti, 1928-1929

Domingo, Junho 15, 2008

Caixa Preta

Amigos,
Quem estiver em São Paulo e/ou puder comprar, não perca:
A coleção de poesia Caixa Preta, organizada por Claudio Daniel para a Lumme Editor, tem três novos títulos publicados: Pincel de Kyoto, de Wilson Bueno, Mergulho às avessas, de Andréa Catrópa, e Poemas diversos, de Elson Fróes. O lançamento dos livros será no dia 24 de junho, a partir das 19 horas, na Casa das Rosas, localizada na Avenida Paulista, n. 37, em São Paulo. Na ocasião, acontecerá também o Recital da Caixa Preta, com a presença dos autores e da poeta Virna Teixeira, que lançará em breve o livro Trânsitos, pela mesma coleção. A proposta da série, iniciada com dois livros de Horácio Costa, publicados em 2007 – Paulistanas e Homoeróticas – é apresentar ao leitor textos inventivos, inquietos, de autores que "realizam uma pesquisa poética imaginativa e com artesanato de linguagem", segundo o texto de frontispício dos livros. Os livros da Lumme Editor podem ser adquiridos em livrarias ou ainda pelo e-mail vendas@lummeeditor.com

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Catástrofe

(...)

Mas, na realidade, a eloqüência precede a dramatização e dá uma razão a ela: teatro e existência teatralizada somente são por causa do discurso. Ou melhor, da discursividade. Isso significa que o Unheimlich é essencialmente uma questão da linguagem. Ou que a linguagem é o locus do Unheimlich, se de fato esse locus existe. Em outras palavras, a linguagem é o que "aliena" o humano. Não por ela ser a perda ou o esquecimento do singular, já que por definição a linguagem abarca a generalidade (este é um refrão freqüente, é um antigo motif derivado das chamadas filosofias da existência); mas porque falar, deixar alguém ser apanhado e arrastado pelo ato da fala, acreditar na linguagem, ou mesmo, talvez, ficar contente ao tomá-la emprestada ou ao submeter-se a ela, é "esquecer alguém". A linguagem não é o Unheimlich, embora somente a linguagem contenha a possibilidade do Unheimlich. O Unheimlich aparece, ou melhor, colaca-se (e sem dúvidas que aí o faz, sempre, já) – algo muda no homem e o desloca do humano, algo no homem mesmo se transtorna, talvez, ou se torna, expulsando-o do humano – com uma certa postura na linguagem: a postura "artística", se desejar, ou mimética. Ou seja, a postura mais "natural" na linguagem, desde que se pense ou pré-entenda a linguagem como mimese. Nas infinitas contradições do "artístico" e do "natural", na conivência lingüistica, o Unheimlich é, finalmente, esquecimento: é esquecer quem fala quando falo, o que acompanha claramente o esquecer para quem falo quando falo e quem ouve quando sou falado. E, movendo-se sempre nesse sentido, esquecer do que se fala.

O motif do esquecimento e do transtorno (reversão) indica que aqui o Unheimlich, por causa da linguagem, é a catástrofe do humano. E isso explica que a poesia – o que Celan chama de poesia ou tenta salvar com o nome de poesia, removendo-a e preservando-a da arte – é, "sempre", a interrupção da linguagem (...).


(Philippe Lacoue-Labarthe. In: La Poésie comme expérience)

(tradução: Thiago Ponce de Moraes)

Galeria Giacometti I: Homem andando


Alberto Giacometti, 1960

Suspensão

Amigos,

Estão suspensas, por algum tempo, as publicações diárias por aqui. Visitem os diversos posts antigos e as belas revistas Confraria (que saiu do forno há pouco, e conta com inéditos de Mallarmé, Joan Navarro e Roberto Juarroz, entre diversos outros) e Zunái (que já saiu há um tempinho, mas que tem muito material, muitas traduções interessantes, muitos ensaios, poemas, contos, debates etc.)

Vez ou outra colocarei coisas por aqui, até, enfim, retomar o ritmo de uma publicação por dia.


Grande abraço,


Ponce.

Revista Confraria #20



Stéphane Mallarmé
Pedro Süssekind
Roberto Juarroz
Taizi Harada
Carlos Emílio C. Lima
Joan Navarro
Luís Serguilha
Flávio Viegas Amoreira
Mariel Reis
Marcelo Moutinho
Regina Guimarães
Marcelo Sahea
Adriana Zapparoli
José Eduardo Barros

Aderaldo Luciano

Claudia Roquette-Pinto

Márcio-André

Marcus Motta

Guilherme Zarvos

Paloma Vidal

Ronaldo Ferrito
Victor Paes

revista bimestral de arte e literatura

ISSN 1808-6276

www.revistaconfraria.com

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Zunái #15

Amigos,

Já está no ar a Zunái #15 - www.revistazunai.com.br - com

Toda língua é poesia, entrevista com a poeta canadense Erin Moure

Berlim, 1936; Pequim, 2008 (editorial)

Quando o olho é uma câmera e a mente edita imagens: poemas, textos, sons e imagens de cinepoesia

A poética sincrônica de Haroldo de Campos, ensaio de Cilene Trindade Nascimento

O vôo suspenso do tempo (sobre Walter Benjamin), ensaio de Maria João Cantinho

Rainer Maria Rilke e August Stramm traduzidos por Augusto de Campos

Chiyo Ni traduzida por Alice Ruiz

César Vallejo em videotradução e musicotradução

Carta de Lisboa, por Maria Alexandre Dáskalos

Contos de João Filho, Márcia Bechara, Greta Benitez, Silvana Guimarães, Bruna Piantino, ilustrados por Sônia Alves Dias.

Poemas de Jean-Paul Michel (França), Odete Costa Semedo (Guiné-Bissau), Alan Mills (Guatemala), Sérgio Rios (México), Joana Corona (Brasil), Carol Marossi (Brasil) e muitos outros.


Não deixem de visitar, está ótima!

Terça-feira, Maio 20, 2008

Wallace Stevens IV

DA POESIA MODERNA

O poema da mente no ato de encontrar
O que há de bastar. Não teve sempre
De encontrar: a cena estava armada; repetia o que
Estava no roteiro.
...................Então o teatro foi mudado
Para uma outra coisa. Seu passado um suvenir.
Tem de estar vivo, aprender a fala do lugar.
Tem de encarar os homens do tempo e encontrar
As mulheres do tempo. Tem de pensar na guerra
E tem de achar o que bastará. Tem de
Construir um novo palco. Tem de estar nesse palco
E, como um ator insaciável, lentamente e
Com meditação, dizer as palavras que no ouvido,
No delicadíssimo ouvido da mente, repitam,
Exatamente, aquilo que se quer ouvir, ao som
Do qual uma audiência invisível escuta,
Não a peça, mas a si mesma, expressa
Numa emoção como de duas pessoas, como de duas
Emoções tornando-se uma. O ator é
Um metafísico no escuro, tangendo
Um instrumento, tangendo uma corda tensa que dá
Sons que assumem repentina correção, de todo
Contendo a mente, abaixo da qual não poderá descer,
Além da qual não tem vontade de subir.
..............................................Tem de
Ser o encontrar de uma satisfação, e pode ser
Um homem patinando ou uma mulher dançando, uma mulher
Penteando-se. O poema do ato da mente.


(tradução: Paulo Henriques Britto)


(Wallace Stevens. In: Parts of the World)

Galeria Malevich IV: Avião voando

Kazimir Malevich, 1914

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Wallace Stevens III

TREZE MANEIRAS DE OLHAR UM MELRO

I

Em vinte montanhas nevadas
Só uma coisa se movia:
O olho do melro.

II

Eu estava entre três opções,
Como árvore
Em que pousaram três melros.

III

O melro girava no vento outonal.
Era um figurante na pantomina.

IV

Um homem mais uma mulher
Dá um.
Um homem mais uma mulher mais um melro
Dá um.

V

Não sei se prefiro
A beleza das inflexões
Ou a das insinuações,
O assovio do melro
Ou o instante depois.

VI

O gelo cobria a longa janela
Com bárbaros cristais.
A sombra do melro
Cruzava de lá para cá.
E na sombra
Desenhou-se
Uma causa indecifrável.

VII

Ó homem magro de Haddam,
Por que sonhais com aves douradas?
Acaso não vedes o melro
A caminhar por entre os pés
Das mulheres que vos cercam?

VIII

Sei de nobres canções
E ritmos lúcidos, irressistíveis;
Mas sei também
Que o melro tem a ver
Com o que sei.

IX

Quando voou além de onde a vista alcança
O melro demarcou o limite
De um de muitos círculos.

X

Ao ver melros voando
Numa luz esverdeada,
Mesmo os cáftens da eufonia
Exclamariam espantados.

XI

Ele atravessava Connecticut
Num tilburi de vidro.
Certa vez teve medo:
Por um instante pensou
Que a sombra da carruagem
Eram melros.

XII

O rio está correndo.
O melro deve estar voando.

XIII

Era noite, a tarde toda.
Nevava
E ia nevar.
E o melro imóvel
Num galho de cedro.


(tradução: Paulo Henriques Britto)


(Wallace Stevens. In: Harmonium)

Galeria Malevich III: Suprematismo


Kazimir Malevich, 1916

Domingo, Maio 18, 2008

Wallace Stevens II

A CASA ESTAVA QUIETA E O MUNDO CALMO

A casa estava quieta e o mundo calmo.
Leitor tornou-se livro e a noite de verão

Era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo calmo.

Palavras eram ditas como se livro não houvesse,
Só que o leitor debruçado sobre a página

Queria debruçar-se, queria mais que muito ser
O sábio para quem o livro é verdadeiro

E a noite de verão é perfeição da mente.
A casa estava quieta porque tinha de estar.

Estar quieta era parte do sentido da mente:
Acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. Em mundo calmo.
Em que não há outro sentido, a verdade

É calma, é verão e é noite, a verdade
É o leitor insone e debruçado a ler.


(tradução: Paulo Henriques Britto)

(Wallace Stevens. In: Transport to Summer)

Galeria Malevich II: Pressentimento complexo

Kazimir Malevich, 1928-1932

Sábado, Maio 17, 2008

Wallace Stevens I

DESILUSÃO DAS DEZ HORAS

As casas são assombradas
Por camisolas brancas.
Nenhuma é verde,
Nem roxa com bainha verde,
Nem verde com bainha amarela,
Nem amarela com bainha azul.
Nenhuma delas é estranha,
Com meias de renda
E faixas de contas.
Ninguém vai sonhar
Com caramujos e orangotangos.
Só um ou outro marinheiro velho
Bêbado dorme de botas
E pega tigres
Em dia vermelho.


(tradução: Paulo Henriques Britto)

(Wallace Stevens. In: Harmonium)

Galeria Malevich I: Branco sobre branco


Kazimir Malevich, 1918

Sexta-feira, Maio 02, 2008

Guido Cavalcanti II

Quem é esta a que toda gente admira


Quem é esta a que toda gente admira,
Que faz de claridade o ar tremular,
Com tanto amor, e deixa sem falar,
E cada um por ela só suspira?

Ah, Deus, como ela é, quando nos mira?
Que diga Amor, eu não o sei contar.
De tal modéstia é feito o seu olhar,
Que às outras todas faz que eu chame de ira.

Nem sei dizer do seu merecimento.
Toda virtude a ela está rendida,
Beleza a tem por Deusa e assim a exalta.

A nossa mente nunca foi tão alta,
Nem há ninguém que tenha tanta vida
Para alcançar um tal conhecimento.


(Guido Cavalcanti. In:Invenção)


(Tradução: Augusto de Campos)

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Guido Cavalcanti I

Pelo olhar fere o espírito sutil


Pelo olhar fere o espírito sutil
que faz na mente o espírito acordar,
do qual se move o espírito de amar
que faz todo outro espírito servil.

Não o descobrirá espírito vil,
tal é o dom deste espírito sem par,
espírito que faz tremer o ar
do espírito que faz dama gentil.

E deste mesmo espírito se move
um outro doce espírito suave,
que um espírito segue de mercê.

O qual espírito espíritos chove
e dos espíritos conhece a chave,
por força de um espírito, que vê.


(Guido Cavalcanti. In:Invenção)


(Tradução: Augusto de Campos)

Sábado, Abril 26, 2008

Galeria Caravaggio V: A Crucificação de São Pedro


Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1600-01

Terça-feira, Abril 22, 2008

Antologia no Peru - Revista Lapsus

Caros,
Saiu, por esses dias, a antologia do coletivo VacAmarela - a mesma publicada trinlíngüe no Festival Tordesilhas - na Revista Lapsus nº 9, co-editada pelo poeta peruano Giancarlo Huapaya.
A página que ele criou na revista para a antologia ficou bem bonita. Visitem em Lapsus-VacAmarela.
Até!

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Notas para a recordação do meu mestre Caeiro

Conheci o meu mestre Caeiro em circunstâncias excepcionais - como todas as circunstâncias da vida, e sobretudo as que, não sendo nada em si mesmas, hão-de vir a ser tudo nos resultados.
Deixei em quase três quartos o meu curso escocês de engenharia naval; parti numa viagem ao Oriente; no regresso, desembarcado em Marselha, e sentindo um grande tédio de seguir, vim por terra até Lisboa. Um primo meu levou-me um dia de passeio ao Ribatejo; comhecia um primo de Caeiro, e tinha com ele negócios; encontrei-me com o que havia de ser meu mestre em casa desse seu primo. Não há mais que contar, porque isto é pequeno, como toda a fecundação.
Vejo ainda, com claridade da alma, que as lágrimas da lembrança não empanam, porque a visão não é externa... vejo-o diante de mim, e vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não tem medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo - nem alta nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de temidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. as mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava - como se falar fosse, para este homem, menos que existir - era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam -, flores, campos largos, águas com sol - um sorriso de existir, e não de nos falar.
Meu mestre, meu mestre, perdido tão cedo! Revejo-o na sombra que sou em mim, na memória que conservo do que sou de morto...
Foi durante a nossa primeira conversa... Como foi, não sei, e ele disse: “Está aqui um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si.” E depois acrescentou, "tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe".
Esta frase, dita como se fosse um axioma da terra, seduziu-me com um abalo, como o de todas as primeiras posses, que me entrou nos alicerces da alma. Mas, ao contrário da sedução material, o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido.
Referindo-se, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim
A yellow primrose was to him,
And it was nothing more.

E traduzi (omitindo a tradução exacta de primrose, pois não sei nomes de flores nem de plantas): “Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada.”
O meu mestre Caeiro riu. “Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela.”
Mas, de repente, pensou.
“Há uma diferença”, acrescentou. “Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só.”
E depois disse:
“O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.”


*


O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o António Mora é um pagão, o próprio Fernando Pessoa seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro. Mas o Ricardo Reis é um pagão por carácter, o António Mora é um pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.
Vou definir isto da maneira em que se definem as coisas indefiníveis - pela cobardia do exemplo. Uma das coisas que mais nitidamente nos sacodem na comparação de nós com os gregos é a ausência de conceito de infinito, a repugnância de infinito entre os gregos. Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo inconceito. Vou contar, creio que com grande exactidão, a conversa assombrosa em que mo revelou.
Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de “O Guardador de Rebanhos”, que não sei quem lhe tinha chamado em tempos “poeta materialista”. Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse-lhe, contudo, que não era absurdo de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
“Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma.”
Fiquei atónito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
“Mas isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?”
E eu, desnorteado. “Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode conceber o espaço como infinito?”
“Não concebo nada como infinito. Como é que eu posso conceber qualquer coisa como infinito?”
“Homem”, disse eu, “suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba...”
“Por quê?”, disse o meu mestre Caeiro.
Fiquei num terramoto mental. “Suponha que acaba”, gritei. “O que há depois?”
“Se acaba, depois não há nada”, respondeu.
Este género de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irresponsável, atou-me o cérebro durante uns momentos.
“Mas V. concebe isso?”, deixei cair por fim.
“Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra cousa qualquer, e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?”
Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.
“Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número - 34, por exemplo. para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior...”
“Mas isso são só números”, protestou o meu mestre Caeiro.
e depois acrescentou, olhando com uma formidável infância:
“O que é o 34 na Realidade?”


*


Há frases repetitivas, profundas porque vêm do profundo, que definem um homem, ou, antes, com que um homem se define, sem definição. Não esquece aquela em que Ricardo Reis uma vez se me definiu. falava-se de mentir, e ele disse: “Abomino a mentira, porque é uma inexactidão.” Todo o Ricardo Reis - passado, presente e futuro - está nisto.
O meu mestre Caeiro, como não dizia senão o que era, pode ser definido por qualquer frase sua, escrita ou falada, sobretudo depois do período que começa do meio em diante de “O Guardador de Rebanhos”. Mas, entre tantas frases que escreveu e se imprimem, entre tantas que me disse e relato ou não relato, a que o contém com maior simplicidade é aquela que uma vez me disse em Lisboa. falava-se de não sei quê que tinha que ver com as relações de cada qual consigo mesmo. E eu perguntei de repente ao meu mestre Caeiro, “está contente consigo?”. E ele respondeu: “Não: estou contente.” Era como a voz da terra, que é tudo e ninguém.

*


Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria possível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve.
Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida - das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias - que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim.
Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse. O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro.
Nada me consola de não ter estado em Lisboa nesse dia, a não ser aquela consolação que pensar no meu mestre Caeiro espontaneamente me dá. Ninguém é inconsolável ao pé da memória de Caeiro ou dos seus versos; e a própria ideia do nada - a mais pavorosa de todas se se pensa com a sensibilidade - tem, na obra e na recordação do meu mestre querido, qualquer coisa de luminoso e de alto, como o sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis.

(Álvaro de Campos. In: Ficções do Interlúdio)

Domingo, Abril 20, 2008

Galeria Caravaggio IV: O Sacrifício de Isaac



Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1603

Galeria Caravaggio III: Davi e Golias


Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1601-02

Sábado, Abril 19, 2008

William Blake - The Tyger


The Tyger
....
Tyger Tyger, burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies,
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? What the chain,
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp,
Dare its deadly terror clasp!

When the stars threw down their spears
And water'd heaven with their tears:
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb made thee?

Tyger Tyger, burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?
....
(William Blake. In: The Complete Illuminated Books)

Sexta-feira, Abril 18, 2008

William Blake - The Tyger V

O Tigre


Tigre, tigre, chama pura
Nas brenhas da noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
Vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
E que mão se atreve ao fogo?

Que ombro & arte te armarão
Fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
Que mão terrível? Que pés?

E que martelo? Que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? Que tenaz
Pro terror mortal que traz?

Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põe pardos,
Vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?

Tigre, tigre, chama pura
Nas brenhas da noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?


(tradução: Vasco Graça Moura)


(William Blake. In: Laocoonte, rimas várias, andamentos graves)

Quinta-feira, Abril 17, 2008

William Blake - The Tyger IV

O Tygre


Tygre Tygre, brilho em chamas,
Na selva da noite inflama,
Que imortal mão forjaria
Tua terrível simetria?

Que distante abismo ou céu
Tocou fogo aos olhos teus?
Com que asas voar ousas?
Em que mão tua flama pousa?

E que braço, & arte estranha,
Trançaram tuas entranhas?
E ao bater teu coração,
Que pés cruéis? & cruéis mãos?

Com que malho? Que limalha
É tua mente na fornalha?
Que bigorna? Que alcance
Teu terror mortal alcança!

Ao descerem os céus suas lanças
E lágrimas qual criança:
Sorriu ele à sua obra?
Fez-te e ao Cordeiro em sobra?

Tygre Tygre, brilho em chamas,
Na selva da noite inflama,
Que imortal mão forjaria
Tua terrível simetria?


(tradução: Thiago Ponce de Moraes)

Quarta-feira, Abril 16, 2008

William Blake - The Tyger III

O Tygre


Tygre Tygre fogo ativo,
Nas florestas da noite vivo,
Que olho ou mão tramaria
Tua temível simetria?

Que profundezas, que céus
Acendem os olhos teus?
Aspirar quais asas ousa?
Qual mão em tua chama pousa?

Por que braço & que arte é feito
Cada nervo de teu peito?
E teu peito ao palpitar,
Que horríveis mãos? & pés sem par?

Que martelo? Que elo? Tua mente
Vem de qual fornalha ardente?
Qual bigorna? Que mão forte
Prende o teu terror de morte?

Quando as lanças das estrelas
Molharam o céu, ao vê-las:
Ele sorriu da obra que fez?
Quem fez o cordeiro te fez?

Tygre Tygre fogo ativo,
Nas florestas da noite, vivo,
Que olho ou mão tramaria
Tua terrível simetria?


(Tradução: Leonardo Gonçalves e Mário Alves Coutinho)


(William Blake. In: Canções da inocência e da experiência)

Terça-feira, Abril 15, 2008

William Blake - The Tyger II

O Tygre


Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

.

(tradução: José Paulo Paes)

.

(William Blake. In: Gregos & Baianos - Ensaios)

Segunda-feira, Abril 14, 2008

William Blake - The Tyger I

O Tygre


Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?


(tradução: Augusto de Campos)


(William Blake. In: Viva Vaia (Poesia 1949-1979))

Domingo, Abril 13, 2008

Galeria Caravaggio II: A incredulidade de São Tomé


Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1601-02

Sábado, Abril 12, 2008

Galeria Caravaggio I: Judith decapitando Holofernes


Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1598

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Hölderlin V

Grécia
Terceira versão


Ó vozes do Destino, ó vias do Viandante!
Pois no azul da escola,
De longe, no bramir do céu
Soa como canto do melro
A afinação alegre das nuvens, bem
Afinada pela presença de Deus, a tempestade.
E apelos, como olhar pra longe,
Pra a imortalidade e os heróis;
Muitas recordações há. Quando a seguir
Ressoando, como pele de novilho
A Terra, desde devastações e tentações dos santos.
- Pois a princípio a obra se forma -,
Segue grandes leis, a Ciência
E a ternura e o largo céu parecendo depois
Puro invólucro, cantam nuvens canoras.
Pois firme é da Terra
O umbigo. É que cativas em margens de erva estão
As chamas e os universais
Elementos. Puro pensar porém no alto vive o Éter. Mas argêntea
Em dias puros
É a Luz. Como sinal de amor
Azul-violeta a Terra.
Pra o que é humilde pode também vir
Um grande começo.
Mas quotidianamente, ó maravilha!, por amor dos homens,
Deus traz um vestido.
E aos conhecimentos se oculta a sua face
E cobre os ares com arte.
E ar e tempo cobrem
O Terrível, para que nenhum por demais
O ame com preces ou
A alma. Pois longo tempo já está aberta
Como folhas, para aprender, ou linhas e ângulos
A Natureza.
E mais dourados os sóis e as luas,
Mas em tempos
Em que quer acabar a velha cultura
Da Terra, isto é: com histórias,
Evoluídas, corajosamente lutadas, como em alturas guia
Deus a Terra. Passos desmedidos
Limita-os ele porém, mas como flores de ouro
Se juntam então as forças da alma, os parentescos da alma,
Para que na terra prefira
Morar a Beleza e qualquer Espírito
Mais em comum se junte aos homens.
Doce é então morar sob as altas sombras
De árvores e colinas, ao sol, onde o caminho
Para a igreja é calcetado. Mas aos viajantes, a quem,
Por amor da vida, medindo-os sempre,
Os passos obedecem, florescem
Mais belos os caminhos, onde o campo
.............................
.............................


(tradução: Paulo Quintela)


(Hölderlin. In: Poemas)

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Hölderlin IV

A rosa


..... Suave irmã!
..... Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
..... Pois de mim terá partido o espírito da vida;
........ Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
........... As flores no campo escalvado,
............... E te não achar.


(tradução: Paulo Quintela)


(Hölderlin. In: Poemas)

Quarta-feira, Abril 09, 2008

Hölderlin III

E pouco saber...


E pouco saber, mas muita alegria
... É dada aos mortais,


Porquê, ó belo Sol, não me bastas tu,
... Ó flor das minhas flores! no dia de Maio?
... ... Que sei eu então de mais alto?


Oh, fora eu antes como as crianças são!
... Que eu, como os rouxinóis, cantasse
... ... A canção descuidada da minha delícia!


(tradução: Paulo Quintela)


(Hölderlin. In: Poemas)

Terça-feira, Abril 08, 2008

Hölderlin II

A Natureza e a Arte ou Saturno e Júpiter


... Alto tu reinas no dia e a tua lei
... ... Floresce, tens na mão a balança, filho de Saturno!
... ... ... E reparte as sortes e ledo repousa
... ... ... ... Na glória das artes imortais do domínio.


... Mas dizem os Poetas que para o abismo
... ... O sacro Pai, o teu próprio, outrora
... ... ... Desterraste e que lá em baixo se chora,
... ... ... ... Onde os Indómitos estão justamente antes de ti,


... Inocente o deus da idade de ouro há já muito:
... ... Outrora sem custo e maior do que tu, embora
... ... ... Não tenha ditado nenhum mandamento
... ... ... ... E nenhum dos mortais por nome o nomeasse.


... Para baixo pois! ou não te envergonhes da gratidão
... ... E se queres ficar, serve ao mais velho
... ... ... E concede-lhe que antes de todos,
... ... ... ... Deuses e homens, o Poeta o nomeie!


... Pois, como das nuvens o teu raio, assim dele
... ... Vem o que é teu, olha! dá dele testemunho
... ... ... O que tu ordenas, e da paz
... ... ... ... De Saturno cresceu todo o poder.


... E quando eu no coração tiver algo de vivo
... ... Sentido e alvoreça o que tu formaste,
... ... ... E no seu berço tiver passado a dormir
... ... ... ... Em delícia o tempo mudável,


... Então eu te reconheço, ó Crónion! então te ouço, a ti
... ... Sábio mestre que, como nós, um filho
... ... ... Do Tempo, dás leis, e quanto
... ... ... ... O santo crepúsculo esconde, anuncias.


(tradução: Paulo Quintela)


(Hölderlin. In: Poemas)

Segunda-feira, Abril 07, 2008

Hölderlin I

Aos poetas jovens


Queridos Irmãos! talvez a nossa arte amadureça,

... Pois, como o jovem, há muito ela fermenta já,
... ... Em breve em beleza serena;
... ... ... Sede, então, devotos, como o Grego foi.


Amai os deuses e pensai nos mortais com amizade!
... Odiai a ebriedade como o gelo! Não ensineis nem descrevais!


... ... Se o mestre vos assusta,
... ... ... Pedi conselho à grande Natureza!


(tradução: Paulo Quintela)


(Hölderlin. In: Poemas)

Sexta-feira, Abril 04, 2008

Durante o recesso

Algumas coisas interessantes aconteceram durante o recesso - algumas publicações, traduções e lançamentos.

Voltarei a andar com o blog diariamente; mas, antes, faço este resumo. A partir de segunda, torno a trazer algumas inquietações (venho com Hölderlin).

Então:

1)

Antologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio (editora 07 Dias, 06 Noites), organizada pelo poeta Claudio Daniel.

[Adriana Zapparoli, Ana Maria Ramiro, André Dick, Andréa Catrópa, Daniel Sampaio, Danilo Bueno, Delmo Montenegro, Diego Vinhas, Donny Correia, Douglas Diegues, Eduardo Jorge, Leonardo Gandolfi, Marília Kubota, Micheliny Verunschk, Nicollas Ranieri, Simone Homem de Mello, Thiago Ponce de Moraes e Virna Teixeira]

-> quem quiser adquirir pode escrever um e-mail para o editor André Sebastião - info@7dias6noites.com



2)

Festa de 3 anos da Revista Confraria e o número especial de aniversário #19.

Para ver as fotos: http://www.confrariadovento.com/editora/fotos08.htm

Para ler a revista, que está impressionante: www.revistaconfraria.com


3)

Traduções da poeta norte-americana (estadunidense, se preferirem) Emily Dickinson, na Revista Zunái #14.

http://www.revistazunai.com.br/traducoes/emily_dickinson.htm




4)

Resenha sobre o Imp., por Beatriz Bajo, no site Armadilha Poética.

http://www.armadilhapoetica.com/arq.php?db=literatura&tab=res&id=22


5)

Colaboração na Revista Literária Abrelatas, editada por poetas e escritores do Sul: Bárbara Lia; Gustavo Soares de Lima; Leonardo Meimes; Wagner Lemos.

O primeiro número da revista contou com diversos escritores, poetas e ilustradores de várias partes do Brasil. A edição pode ser "baixada" no site da editora.

[Adriano Esturilho; Alex da Silva Martire; Ana Guimarães; Andrei Vasquez; Andréia Donadon Leal; Antonio Carlos Floriano; Beatriz Bajo; Benjamin Marchi; Candido Rolim; Carlos Emilio C Lima; Claudinei Damasceno Romão; Cláudio B Carlos; Eduardo Lacerda; Fabrício Marques; Fernando Aguiar; Geruza Zelnys; Giovana Bonifácio; J T Parreira; James W Holloway; Jocelyn Pantoja; Joel Flores; Juan Fiorini; Karen À. Villeda; Leonardo Meimes; Luis Serguilha; Mario Mariones; Me Morte; Nelson Marzullo Tangerini; Rafael Nunes Cerveglieri; Rafael Pereira; Raimundo de Souza; Raul Koliev; Ricardo Araújo; Rogério Santos; Ruben Ygua; Thiago Ponce de Moraes]

Site: http://www.editorainverso.com/

Revista: http://www.editorainverso.com/files/abrelatas_01.pdf




Até breve.

Terça-feira, Abril 01, 2008

Revista Confraria # 19



NÚMERO 19
Arnaldo Antunes
Armando Freitas Filho
Gozo Yoshimasu
Milton Hatoum
Ricardo Aleixo
Waltercio Caldas
Luiz Costa Lima
Luiz Vilela
Marçal Aquino
Jane B. Glasman
Max Martins
Moacir Amâncio
Werner Aguiar
Aderaldo Luciano
Claudia Roquette-Pinto
Márcio-André
Marcus Motta
Guilherme Zarvos
Paloma Vidal
Ronaldo Ferrito
Victor Paes
revista bimestral de arte e literatura
ISSN 1808-6276

NOVIDADES

resenha
Leia abaixo três resenhas recentes
sobre a edição Confraria 2 anos:

festa de aniversário
Veja aqui as fotos da comemoração dos 3 anos
da Revista Confraria, que ocorreu no Espaço Cultural
Laurinda Santos Lobo, no Rio.




Revista Confraria, arte e literatura (ISSN 1808-6276) é uma publicação bimestral, sem fins lucrativos, produzida pela Confraria do Vento Editora www.confrariadoventoeditora.com


Segunda-feira, Março 31, 2008

A queda de Ícaro


Pieter Bruegel, 1558

Segunda-feira, Março 24, 2008

Órfã no cemitério


Eugène Delacroix, 1824

Quinta-feira, Março 20, 2008

Comemoração de 3 anos da Revista Confraria




estarão juntos na
comemoração dos três anos da
CONFRARIA DO VENTO
uma noite festiva
com música, performance, cinema e poesia
na V Semana Cultural em Santa

leitura
(convidados):
João Gilberto Noll
Silviano Santiago
Ivo Barroso
Armando Freitas Filho

(editores):
Márcio-André
Victor Paes
Ronaldo Ferrito
Karinna Gulias
Aderaldo Luciano
Thiago Ponce de Moraes
Pablo Araujo

performance:
Lauro Góes
e alunos do curso de
direção teatral da UFRJ

música:
Bombo de Corda
Notyesus

exibição de curtas:
Pelo Rio, de Paula Gaitán
Quimera, de Eryk Rocha e Tunga
5 poemas concretos, de Christian Caselli


dia 22 de março sábado, a partir das 19hs Espaço Cultural Laurinda Santo Lobo Rua Monte Alegre, 306, Santa Teresa

Domingo, Março 16, 2008

Retorno

Truly speaking, it is not instruction, but provocation,
that I can receive from another soul.

Ralph Waldo Emerson

15 July 1838

Sábado, Janeiro 05, 2008

Recesso

Faço férias das sensações.


(Bernardo Soares. In: Livro do Desassossego)

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Chuva


Oswaldo Goeldi, 1957

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Eyes in the heat


Jackson Pollock, 1946

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Poesia americana - Los atletas cosmicos


Salvador Dali, 1943

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

Maya y la muñeca

Pablo Picasso, 1938

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

La modèle rouge


René Magritte, 1935

Sábado, Dezembro 22, 2007

Ou o pensamento contínuo

O escritor Marcelo Ariel, de Santos, escreveu suas impressões sobre o Imp. no blog - Ou o pensamento contínuo.

Para lerem os comentários do Ariel, terrorista literário que almeja ser enterrado com sua AR-15, vejam aqui: comentário sobre o Imp..


Agradeço ao Marcelo Ariel pela leitura atenta e crítica - bem como pela movimentação e articulação séria no que costumamos chamar de "cena contemporânea de poesia brasileira".

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Zero Dollar


Cildo Meirelles, 1978

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Fernando Pessoa IV

ESTA ESPÉCIE de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.


(Fernando Pessoa. In: Cancioneiro)

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Fernando Pessoa III

HÁ DOENÇAS piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.


(Fernando Pessoa. In: Cancioneiro)

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

Fernando Pessoa II

QUEM BATE à minha porta
Tão insistentemente
Saberá que está morta
A alma que em mim sente?

Saberá que eu a velo
Desde que a noite é entrada
Com o vácuo e vão desvelo
De quem não vela nada?

Saberá que estou surdo?
Porque o sabe ou não sabe,
E assim bate, ermo e absurdo,
Até que o mundo acabe?


(Fernando Pessoa. In: Cancioneiro)

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Fernando Pessoa I

Isto

DIZEM que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


(Fernando Pessoa. In: Cancioneiro)

Sábado, Dezembro 15, 2007

Revista Unisinos

Amigos,

Saíram, por esses dias [03.12.07], na Revista da Unisinos, um texto de André Dick sobre o Imp. e dois poemas inéditos meus.

Para irem direto ao ponto, cliquem aqui: A si disseste enquanto nada e Detalhe de 1849: um outro outubro.


Meus agradecimentos ao André, que com muito empenho vem organizando a seção de poesia desta Revista, e que muito gentilmente me convidou a publicar dois novos poemas.

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Emily Dickinson IV

449

Morri pelo Belo – mas mal
Ajustara-me à Tumba
Quando Um que se foi por Verdade
Pôs-se comigo junto –

Doce indagou “Por que morreu?”
“Pelo Belo”, falei –
“E eu – por Verdade – que é o Mesmo –
Irmãos, somos”, me disse –

E então, qual Parentes, à Noite -
Falávamos das Tumbas -
Até que o Musgo nos beijando –
Cobrisse-nos - os nomes -


(tradução: Thiago Ponce de Moraes)


I died for Beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining room –

He questioned softly "Why I failed"?
"For Beauty", I replied –
"And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren, are", He said –

And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –


(Emily Dickinson. In: The Complete Poems of Emily Dickinson)

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

Emily Dickinson III

441

Eis minha carta ao Mundo
Que nunca Me anotou –
Simples Novas que a Natureza –
Com Alteza contou

Eu não vejo a que Mãos
Sua Mensagem é dada –
Por Seu amor – Doces – cidadãos –
A Mim – julgais afáveis


(tradução: Thiago Ponce de Moraes)


This is my letter to the World
That never wrote to Me –
The simple News that Nature told –
With tender Majesty

Her Message is committed
To Hands I cannot see –
For love of Her – Sweet – countrymen –
Judge tenderly – of Me


(Emily Dickinson. In: The Complete Poems of Emily Dickinson)

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Emily Dickinson II

1052

Eu nunca vi um Urzal –
Eu nunca vi o Mar –
Mas já sei eu como é a Urze –
E o que é um Ondear.

Nunca falei com Deus
Nem visitei os Céus –
Mas sei chegar ao sítio Teu
Qual Mapa eu tivesse –


(tradução: Thiago Ponce de Moraes)


I never saw a Moor –
I never saw the Sea –
Yet know I how the Heather looks
And what a Billow be.

I never spoke with God
Nor visited in Heaven –
Yet certain am I of the spot
As if the Checks were given –



(Emily Dickinson. In: The Complete Poems of Emily Dickinson)

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Emily Dickinson I

278

Um amigo sombrio – para dias Ardentes –
Acha-se mais facilmente –
Que um de temperatura alta
Para Frígidas – horas da Mente –

O Cata-vento logo ao Leste –
Espanta as almas dos Tecidos – para longe –
Se os Corações de Lã são mais fortes –
Que aqueles de Algodão –

Culpar a quem? Ao Tecelão?
Oh, mal comportados fios!
As Tapeçarias do Paraíso
Estão prontas – não notadamente!


(tradução: Thiago Ponce de Moraes)


A shady friend – for Torrid days –
Is easier to find –
Than one of higher temperature
For Frigid – hour of Mind –

The Vane a little to the East
Scares Muslin souls away
If Broadcloth Hearts are firmer
Than those of Organdy

Who is to blame? The Weaver?
Ah, the bewildering thread!
The Tapestries of Paradise
So notelessly are made!


(Emily Dickinson. In: The Complete Poems of Emily Dickinson)

Domingo, Dezembro 09, 2007

Frase da página 161

É assim:

1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.


Repasso, pois, ao Baião, ao Ricardo, ao Edu, ao Márcio-André e ao Daniel.


Abri a Obra poética do Pessoa, que sempre está em cima do computador. E na página 161, no livro Cancioneiro, a quinta frase completa é uma estrofe toda:


QUEM BATE à minha porta
Tão insistentemente
Saberá que está morta
A alma que em mim sente?


(In: Obra Poética. Fernando Pessoa)

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Duch Wody


Alfred Kubin, 1905

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Os latinos IV - Horácio

......Aere Perennius


......Ergui um monumento
mais duradouro que o bronze, mais soberbo
que o régio vulto das pirâmides, alheio
ao vento, à chuva, à sucessão sem fim dos anos,
......ao tempo em sua fuga.


......Não morrerei de todo:
parte de mim há de evadir-se aos ritos fúnebres.
Crescerei, sempre novo, com o louvor futuro,
enquanto ao Capitólio ascendam o pontífice
......e a virgem silenciosa.


......Eu que de pais humildes
nasci onde violento o Áufidio estrondeia
e Dauno sobre povoações de agricultores
reinou escasso de águas, eu serei famoso:
......sim, hão de celebrar-me


......por ter sido o primeiro
a usar o metro eólio na poesia itálica.
Não escondas, ó Musa, o orgulho que te cabe
por teu merecimento, e cinge minha fronte
......com os louros de Delfos.


(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Horácio. In: Poesia grega e latina)

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Os latinos III - Petrônio

O verdadeiro prazer


Grosseiro e rápido, o prazer da união
enfara-se de Vênus mal chegada ao termo.
Não vamos pois, como animais libidinosos,
acometê-lo cegos e precípites,
que o amor assim languesce e morre a sua flama.
Mas antes, antes, num feriado interminável,
fiquemos a beijar-nos sobre o leito!
Não haverá cansaço nem rubor;
isso nos agradou, agrada e agradará;
isso jamais termina, é um começar sem fim.


(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Petrônio. In: Poesia grega e latina)

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Os latinos II - Ovídio

O poder da poesia


Eu, o poeta que escrevo enamorado, Ovídio,
eu que nasci na úmida terra dos pelignos,
estes versos compus, que assim Amor mandou:
longe de mim, longe de mim, ó vós, austeras!
Não sois a boa audiência para ternos cantos.
Leiam-me a virgem que se inflama ao ver o noivo
e o jovem que só agora conheceu o amor.
Que alguém, ferido pela mesma seta que eu,
pelos vestígios sua chama reconheça
e diga, surpreendido: .... "Como foi que o poeta
veio a saber destes meus casos?"
.............................................. Eu ousava
- recordo-me - narrar as guerras celestiais
e Giges de cem mãos, e voz não me faltava
para dizer de como Tellus se vingou
e Pélion e Ossa vieram a cair do Olimpo.
Nuvens eu tinha em mãos, e o raio com que Júpiter
defenderia os céus.
......................... Portas me fecha a amada:
largo Jove e seu raio, que me saem do espírito.
Perdão: não me serviam, Júpiter, teus raios.
às meiguices voltei e às leves elegias,
que são as minhas armas, e as palavras doces
amoleceram logo a dura porta.
....................................... Os versos
fazem descer os cornos da sangrenta Lua
e recuar os corcéis do Sol, brancos de neve;
o canto esmaga a fauce aberta da serpente
e faz retroceder à fonte a água corrente.
Com os meus versos cedeu a porta; e a fechadura,
em carvalho encaixada embora, foi vencida.
Que me diria o ágil Aquiles, se o cantasse?
Que me adviria de qualquer dos dois Atridas?
Do que errou tantos anos quantos combateu,
e de Heitor que arrastaram os corcéis de Hermônia?
Mas se canto a beleza de uma terna jovem,
como preço do poema ela procura o vate:
eis uma digna recompensa. Adeus, heróis
de ilustres nomes: vossa paga não me serve.
Formosas jovens, vós porém lançai o olhar
sobre estes poemas que me dita o Amor purpúreo.


(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Ovídio. In: Poesia grega e latina)

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Os latinos I - Catulo

.....Vivamos, minha Lésbia


.....Vamos viver e amar-nos, minha Lésbia,
.....sem atribuir o mínimo valor
.....aos múrmurios de anciães os mais severos.
.....Os sóis podem morrer e retornar;
.....mas quando morre a nossa breve luz
.....dormimos uma só e perpétua noite.
.....Dá-me pois beijos mil, mais cem depois,
.....logo mil outros, e um segundo cento,
.....em seguida outros mil, mais cem depois.
.....Quando o número andar por muitos mil,
.....melhor é não saber, perder a conta:
.....assim ninguém nos dará azar, de inveja,
.....sabendo quantos beijos nós trocamos.


(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Catulo. In: Poesia grega e latina)

Sábado, Dezembro 01, 2007

Fabeltier


Alfred Kubin, 1905-1906

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Os gregos IV - Safo

.....Contemplo como o igual dos próprios deuses


.....Contemplo como o igual dos próprios deuses
.....esse homem que sentado à tua frente
.....escuta assim de perto quando falas
.............com tal doçura,


.....e ris cheia de graça. .. Mal te vejo
.....o coração se agita no meu peito,
.....do fundo da garganta já não sai
.............a minha voz,


.....a língua como que se parte, corre
.....um tênue fogo sob a minha pele,
.....os olhos deixam de enxergar, os meus
.............ouvidos zumbem,


.....e banho-me de suor, e tremo toda,
.....e logo fico verde como as ervas,
.....e pouco falta para que eu não morra
.............ou enlouqueça.



(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Safo, a Décima Musa. In: Poesia grega e latina)

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Os gregos III - Píndaro

........O sonho de uma sombra


........A sorte dos mortais
........cresce num só momento;
........e um só momento basta
........para a lançar por terra,
........quando o cruel destino
........a venha sacudir.



........Efêmeros! que somos?
........que não somos? .. O homem
........é o sonho de uma sombra.
........Mas quando os deuses lançam
........sobre ele a sua luz,
........claro esplendor o envolve
........e doce é então a vida.



(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Píndaro de Cinoscéfalas. In: Poesia grega e latina)

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Os gregos II - Anacreonte

........A moça esquiva


........Por que me foges, ó potranca trácia,
........lançando-me esse olhar oblíquo?
........Presumes que me falte habilidade?


........Sabe que eu poderia sem transtorno
........impor-te o freio e dominando as rédeas
........fazer com que girasses em redor da meta.


........Se agora brincas nas campinas e nos pastos
........saltando leve, é que não tens um laçador
........que saiba cavalgar-te com destreza...



(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Anacreonte de Teos. In: Poesia grega e latina)

Terça-feira, Novembro 27, 2007

Os gregos I - Arquíloco

.
.
.
..........Com a lança

..........Com a lança eu alcanço
..........meu pão de cevada;
..........com a lança eu consigo
..........o meu vinho ismárico;
..........na lança apoiado
..........eu bebo esse vinho.
.
.
.
.
(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)


(Arquíloco de Paros. In: Poesia grega e latina)

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Poesia contemporânea: Seminário Internacional Subjetividades e Identidades em Devir

Amigos,

Hoje, na UFF, começa um riquíssimo seminário internacional que tem como principal foco a discussão de poéticas contemporâneas. O evento traz pesquisadores e poetas de universidades brasileiras, portuguesas e francesas.

A Celia Pedrosa, uma das organizadoras do evento e professora da UFF, muito gentilmente me convidou para participar da abertura, em que falarei alguma coisa e lerei poemas. Será bastante interessante, aposto. Por isso deixo a programação de hoje:


ABERTURA - 18h - Auditório Macunaíma

CONFERÊNCIA - Dominique Combe, Université Paris III - "La nostalgie de l'épique"

POETAS E POEMAS: leituras

Lançamentos:

A Gênese do Amor, poemas de Ana Luísa Amaral, Editora Gryphos
Revista Inimigo Rumor, n.20, Editora 7Letras
Revista Modo de Usar & Co., Editora Berinjela
Cadernos de Literatura Comparada Instituto Margarida Losa – Univ. do Porto, n. 16
Experiencia, cuerpo y subjetividades: literatura brasileña contemporánea (org. de Florencia Garramuño, Gonzalo Aguilar e Luciana de Leone, Editora Viterbo (Rosario/Argentina)

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Para o restante da programação, clique aqui.
Até lá!

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

A Adoração dos Magos

Gentile quer salientar que o instante místico acontece no cotidiano. A caça é essencialmente "naturalidade educada", é considerada uma forma de vida ideal, adequada às cortes. Sendo a forma de vida escolhida, é também um momento religioso (a revelação divina também é vista como algo reservado aos privilegiados). Enfim, o ideal estético é sentido como ideal de vida (acontece agora no gótico internacional, acontecerá séculos mais tarde no Maneirismo e no Art Nouveau); dessa forma, é impossível uma distinção entre arte e vida, é impossível conferir à arte uma função específica.

Masaccio reagirá contra essa situação. (...)

Masaccio diz que a arte não se identifica com a vida, mas está fora do espaço da vida, num outro espaço e num outro tempo claramente distintos. A arte não se identifica com o ideal da vida dos príncipes, aliás, não se identifica com nenhum tipo de vida; é uma disciplina como a ciência (ninguém pensaria na física nuclear como o ideal de sua existência, porque a ciência é uma disciplina praticada no interior da coletividade, mas por especialistas). A arte não é o belo da natureza e não é sagrada. A arte é algo feito pelo homem e por isso diz respeito à responsabilidade moral dele. Procurar um álibe para a arte no "belo" da natureza é um erro, assim como é um erro procurar justificativas da ação histórica dentro da natureza.


(Giulio Carlo Argan. In: Clássico anticlássico)

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Gentile da Fabriano, Adoração dos Magos, 1423


Masaccio, Adoração dos Magos, 1426

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

A Leitura Crítica da Obra de Arte

É fácil reconstruir o significado simbólico, mas existem muitas coisas para as quais é impossível encontrar um significado simbólico (por exemplo, os seixos aos pés da cruz); essas coisas são evidentemente portadoras de um significado que nos escapa, mas no entanto é um significado. A obra de arte não é um particular que possui valor universal (como diria Benedetto Croce)? Então, se na dor de um indivíduo vejo o espelho da dor universal, o jovem Werther deixa de ser um apaixonado desiludido para se tornar modelo de uma geração. Há uma certa verdade nisso: na obra de arte tudo pode possuir muitos significados, muitas possibilidades de interpretação. Na obra de arte, não apenas é preciso buscar o valor de cada signo (um valor semântico, ou de comunicação), mas cada signo se apresenta também como sin-semântico, como significativo ao mesmo tempo de si e de outra coisa, como um termo de relação. Portanto, é impossível satisfazer-se com um significado unívoco, como fica claro pela leitura de algumas obras muito importantes.


(Giulio Carlo Argan. In: Clássico anticlássico)

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Babel - ou futuro da fala

Um verdadeiro homem só pode ser, com prazer e proveito, bilíngüe. Uma língua ainda que minuciosamente codificada nas suas regras e normas, é bastante difícil de dominar e difundir; duas são o limite humano de qualquer homem que não nasceu para se suicidar como filólogo da inutilidade.
Devemos transformar o inglês no latim do mundo inteiro. Para isso não basta ter uma grande população, mas também uma grande literatura e a capacidade de vir a ter uma literatura ainda maior.
(...)
Usando do inglês como língua científica e geral, usaremos do português como língua literária e particular. Teremos, no império como na cultura, uma vida doméstica e uma vida pública. Para o que queremos aprender leremos inglês; para o que queremos sentir, português. Para o que queremos ensinar, falaremos inglês; português para o que queremos dizer.
(...)
O português é (1) a mais rica e mais complexa das línguas românicas, (2) uma das cinco línguas imperiais, (3) é falado, senão por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto o francês, (4) é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano - isto é, não é uma língua isolada, (5) é a língua falada num grande país crescente - o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser falada por uma grande nação).
.
(Fernando Pessoa. In: A Língua Portuguesa)

Terça-feira, Novembro 20, 2007

O problema ortográfico

O problema da ortografia é o da palavra escrita, nada tendo essencialmente que ver com a palavra falada, visto que esta nada tem com aquela; que, sendo a palavra escrita um produto da cultura, ao contrário da falada, que o é do simples uso, hábito ou moda, e sendo a cultura um produto do indivíduo, cada indivíduo tem - salvo casos episódicos de força maior - o dever cultural de escrever na ortografia que ache melhor, visto que essa ortografia é a expressão de esse pensamento; que esse indivíduo tem o dever social de fazer a propaganda, com a força de pensamento que nele caiba, de tal ortografia.


(Fernando Pessoa. In: A Língua Portuguesa)

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Floresta Crepuscular


Lasar Segall, 1956

Sábado, Novembro 17, 2007

João Cabral de Melo Neto VI

Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.


(João Cabral de Melo Neto. In: A educação pela pedra)

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

João Cabral de Melo Neto V

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.


A


Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como uma bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele como a coisa ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina.

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca.

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.


B


Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa faca
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)


C


Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se embotam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.


D


Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tal motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)


E


Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.


F


Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja mesmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.


G


Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa

que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.


H


Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente

o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz,
certa eletricidade,

mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas.


I


Essa lâmina adversa,
como o relógio ou a bala,
se torna mais alerta
todo aquele que a guarda,

sabe acordar também
os objetos em torno
e até os próprios líquidos
podem adquirir ossos.

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.

Em volta tudo ganha
a vida mais intensa,
com nitidez de agulha
e presença de vespa.

Em cada coisa o lado
que corta se revela,
e elas que pareciam
redondas como a cera

despem-se agora do
caloso da rotina,
pondo-se a funcionar
com todas suas quinas

Pois entre tantas coisas
que também já não dormem,
o homem a quem a faca
corta e empresta seu corte,

sofrendo aquela lâmina
e seu jato tão frio,
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios.


*****


De volta dessa faca,
amiga ou inimiga,
que ais condensa o homem
quanto mais o mastiga;

de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

da imagem em que mais
me detive, a da lâmina,
porque é de todas elas
certamente a mais ávida;

pois de volta da faca
se sobe a outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne,

e dela àquela outra,
a primeira, a da bala,
que tem o dente grosso
porém forte a dentada

e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pode a linguagem,

e afinal à presença
da realidade, prima,
que gerou a lembrança
e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,
prima e tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta.



(In: João Cabral de Melo Neto. Uma faca só lâmina)

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

João Cabral de Melo Neto IV

Tecendo a manhã


1


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


(João Cabral de Melo Neto. In: A educação pela pedra)

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

João Cabral de Melo Neto III

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


(João Cabral de Melo Neto. In: O Cão sem plumas)


Terça-feira, Novembro 13, 2007

João Cabral de Melo Neto II

II. Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).


(João Cabral de Melo Neto. In: O Cão sem plumas)

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

João Cabral de Melo Neto I

A escultura de Mary Vieira


dar a qualquer matéria
a aritmética do metal
dar lâmina ao metal
e à lâmina alumínio

dar ao número ímpar
o acabamento do par
então ao número par
o assentamento do quatro

dar a qualquer linha
projeto a pino de reta
dar ao círculo sua reta
sua racional de quadrado

dar à escultura o limpo
de uma máquina de arte
por sua vez capaz da arte
de dar-se um espaço explícito


(João Cabral de Melo Neto. In: Museu de Tudo)

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

O ladrão


Oswaldo Goeldi, 1955

Quinta-feira, Novembro 08, 2007

Ovi-Sungo, Treze Poetas de Angola




Ovi-Sungo, Treze Poetas de Angola, livro organizado por Claudio Daniel, é a primeira antologia publicada no Brasil com autores desse país africano, como Arlindo Barbeitos, David Mestre, João Maimona, Abreu Paxe e Maria Alexandre Dáskalos. A coletânea, publicada pela Lumme Editor, traz notas biográficas dos poetas, dois ensaios críticos, escritos por especialistas em literatura africana de língua portuguesa, e um glossário, no final do volume, com o significado de palavras em idiomas locais, como o umbundu, citadas nos poemas. A história da literatura angolana contemporânea está relacionada ao movimento pela emancipação nacional: os primeiros nomes significativos de sua poesia, como Agostinho Neto, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho, participaram ativamente da resistência à ocupação colonial portuguesa, que durou até a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1973. Com a queda da ditadura salazarista e a independência angolana, veio a guerra civil entre os grupos políticos UNITA, FNLA e MPLA, que se estenderia até o final da década de 1990, quando um acordo político permite o restabelecimento da democracia, o pluripartidarismo e eleições livres. Dentro desse quadro de reconstrução nacional, surgiram diferentes tendências literárias, desde a poesia engajada até a poesia étnica e a experimental, com influência do concretismo brasileiro (como ocorre, por exemplo, em Lopito Feijoó e Frederico Ningi). O livro faz um mapeamento de várias tendências dessa poesia, com ênfase na produção mais recente, dos anos 80 e 90, mas incluindo também alguns nomes históricos, das décadas de 60 e 70, como David Mestre e Arlindo Barbeitos.


Lançamento: dia 09 de novembro, sexta-feira, a partir das 19h, na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo, durante o evento Zunái in Concert.

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Lançamento Confraria 2 Anos

O lançamento da Revista Confraria - 2 Anos será no Oi Futuro, amanhã, dia 08.11, às 18h.

Segue o release:

A editora Confraria do Vento, com o apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lança, no dia 8 de novembro, às 18 horas, no Oi Futuro, o livro Confraria 2 Anos .

Após dois anos sendo publicada na internet com sucesso, a Revista Confraria finalmente ganha uma versão impressa.


Edição comemorativa da revista, este livro reúne trabalhos inéditos de 71 dos autores que já marcaram presença na revista eletrônica, entre eles Manoel de Barros, Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Gerardo Mello Mourão, João Gilberto Noll, Nei Lopes, Silviano Santiago, Charles Kiefer, Marcelino Freire, Carlos Nejar, Raul Antelo, Emmanuel Carneiro Leão e Eduardo Portella. A edição traz também traduções de autores como Ghérasim Luca, Serge Pey, Hagiwara Sakutaro e Mathieu Bénézet, que, apesar de consagrados, permaneciam inéditos em português. Entre outros destaques, a revista traz a faceta oculta de alguns autores e apresenta um Allen Ginsberg ensaísta, um Jean Baudrillard fotógrafo, um Boaventura de Sousa Santos contista; além de ser ilustrada em cores, sobre papel couché, por obras de 8 grandes artistas plásticos, como Anna Bella Geiger, Lena Bergstein e François Schuiten. Entre ensaios, poesia e contos, esta edição luxuosa é, certamente, um significativo panorama da literatura e do pensamento atuais.


Confraria é con-fluir de idéias opostas, sem buscar sínteses. Não procuramos respostas, preferimos a dúvida. Preferimos as diferenças ao consenso que tudo dilui. Na era das egogaláxias, dos gênios encastelados em suas verdades, Confraria quer as falsas verdades e as mentiras autênticas.


Assim como a edição eletrônica continuou firme nessas propostas de democratização e diversidade que a consolidaram como uma das revistas literárias mais lidas e respeitadas do país, com leitores e colaboradores de todo o mundo, a edição impressa traz também trabalhos de novos autores, muitos tendo sido publicados pela primeira vez.


Lista dos autores:

ENSAIOS

Aderaldo Luciano
Allen Ginsberg
Ana Alencar
Ana Lúcia Moraes
Benoît Peeters
Carlos Felipe Moisés
Charles Kiefer
Daniel Arruda Nascimento
Eduardo Portella
Elizabeth Muylaert Duque Estrada
Emmanuel Carneiro Leão
Ezra Pound
Ghérasim Luca
Gilles Ivain (Ivan Chtcheglov)
Gustavo Olivieri
Luiz Rohden
Manoel de Barros
Manuel Antônio de Castro
Marcelo Diniz
Márcio-André
Paula Glenadel
Raul Antelo
Régis Bonvicino
Rod Britto
Silviano Santiago
Victor Paes

IMAGENS

Anna Bella Geiger
Fabien Rodrigues
Fernando Figueiredo
François Schuiten
Jean Baudrillard
Lena Bergstein
Paula Donolato Jorge
Paulo Ponte Sousa

POESIA

Adolfo Montejo Navas
Adriana Bebiano
Augusto de Campos
Carlos Nejar
Edson Bueno de Camargo
Ericson Pires
Ferreira Gullar
Gabriela Nobre
Gerardo Mello Mourão
Gonçalo M. Tavares
Ivo Barroso
Jean Baudrillard
Karinna Gulias
Marcelo Ariel
Rita Dahl
Ronaldo Ferrito

CONTOS

Boaventura de Sousa Santos
Fernando Bonassi
Guilherme Zarvos
Gustavo Rios
João Gilberto Noll
Luiz Ruffato
Marcelino Freire
Muhammad Ibrahim Bu'allu
Nei Lopes
Nelson de Oliveira
Rodrigo Ielpo
Silvio Fiorani

PHANTASCOPIA

Antonin Artaud
Arjen Duinker
Edwin Torres
Guennádi Aigui
Hagiwara Sakutaro
Mathieu Bénézet
Rafael Alberti
Serge Pey
Stephen Rodefer
Zeami Motokiyo


O Oi Futuro fica na rua 2 de dezembro, 63, 8º nível, Flamengo, Rio de Janeiro.

Terça-feira, Novembro 06, 2007

Bere'Shith: A cena da origem IV

II

1. E foram conclusos ... § ... o céufogoágua e a terra ..... §
... e seu todo-plenário

2. E Deus concluiu
... § ... no dia sétimo ...... §§
... a obra ... § ... do seu fazer ...... §§§
... E ele descansou ... § ... no dia sétimo ...... §§
... da obra toda-feita ... § ... do seu fazer

3. E Deus bendisse
... § ... o dia sétimo ...... §§
... e o ... § ... santificou ... ... ... ... §§§
... Pois nele descansou ... § ... da obra toda-feita ....... §§
... que Deus criou ... § ... no fazer

4. Esta a gesta do céufogoágua
... § ... e da terra ...... §
... enquanto eram criados ... §§§
... No dia ... § ... de os fazer ... § ... Ele-O-Nome-Deus ..... §
... terra e céufogoágua


(tradução: Haroldo de Campos)


(In: Bere'shith: A cena da origem)

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Bere'Shith: A cena da origem III

20. E Deus disse ..... §§
.... que as águas esfervilhem ......
§§
.... seres fervilhantes ...
§ ... alma-da-vida ..... §§§
.... E aves ....
§ .... voem sobre a terra ...... §§
.... face à face ....
§ .... do céufogoágua

21. E Deus criou ......
§§
.... os grandes ...
§ ... monstros do mar ....... §§§
.... E todas as almas-de-vida rastejantes ....
§
.... que fervilham nas águas ...
§ ... segundo sua espécie ... §
.... e todas as aves de pena ...
§ ... segundo sua espécie .... §§
.... E Deus viu ...
§ ... que era bom

22. E Deus ...
§ ... os bendisse .. § .. dizendo .... §§§
.... Frutificai multiplicai ...
§ ... cumulai nas águas ... §
.... do mar-de-águas .....
§§
.... e que a ave ...
§ ... multiplique na terra

23. E foi tarde e foi manhã ...
§
.... dia quinto

24. E Deus disse ...
§ ... produza a terra .. § .. almas-de-vida ... §
.... segundo sua espécie ......
§§
.... animais-gado e répteis ...
§ ... e animais-feras .... §
.... segundo sua espécie ....
§§§
.... E foi assim

25. E Deus fez os animais-feras ...
§ ... segundo sua espécie ... §
.... e os animais-gado ...
§ ... segundo sua espécie ..... §§
.... e ..
§ .. todos os répteis do solo .. § .. segundo sua espécie .. §§§
.... E Deus viu ...
§ ... que era bom

26. E Deus disse ....
§§
.... façamos o homem ...
§ ... à nossa imagem ... §
.... conforme-a-nós-em-semelhança .......
§§§
.... E que eles dominem sobre os peixes do mar
... §
.... e sobre as aves do céu
... §
.... e sobre os animais-gado ... § ... e sobre toda a terra .... §§
.... e sobre todos os répteis ... § ... que rastejem sobre a terra

27. E Deus criou o homem
... § ... à sua imagem ..... §§
.... à imagem de Deus
... § ... ele o criou ...... §§§
.... Macho e fêmea ... § ... ele os criou

28. E Deus ...
§ ... os bendisse .... §§
.... e Deus ... § ... lhes disse ... §
.... frutificai multiplicai ... § ... cumulai na terra .... §
.... e subjugai-a ...... §§§
.... E dominai ... § ... sobre os peixes do mar ... §
.... e sobre as aves do céu .... §§
.... e sobre todo animal ... § ... que rasteje sobre a terra

29. E Deus disse
... §
.... eis que vos dei ... §
.... toda a erva ... § ... que gera semente ... §
.... sobre a face de toda a terra ..... §§
.... e toda a árvore ... § ... onde o fruto-da-árvore .... §
.... gera semente ...... §§§
.... Isto vos caberá ... § ... por alimento

30. E para todo animal da terra ....
§
.... e para toda ave do céu .... §
.... e para tudo ... § ... o que rasteja sobre a terra ... §
.... com alma-de-vida dentro ..... §§
.... a erva o verde-todo-verdura .... § ... por alimento .... §§§
.... E foi assim

31. E Deus viu
... § ... o seu feito no todo .... §
.... e eis que era ... § ... muito bom ...... §§§
.... E foi tarde e foi manhã .... §
.... dia sexto


(tradução: Haroldo de Campos)


(In: Bere'shith: A cena da origem)

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Bere'shith: A cena da origem II

9. E Deus disse ... § ... que se reúnam as águas ... §
... sob o céufogoágua ... § ... num sítio uno ......... §§
... e que se aviste ... § ... o seco ........ §§§
... E foi assim

10. E Deus chamou ao seco ... § ... terra ....... §§
.... e às águas reunidas ... § ... chamou mar-de-águas ....... §§§
.... E Deus viu ... § ... que era bom

11. E Deus disse ... § ... que vice a terra ... § ... de relva ... §
.... de erva ... § ... que gere semente ...... §§
.... de árvore-de-fruto .. § .. que dê fruto .. § .. de sua espécie .. §§
.... com a semente dentro ... § ... por sobre a terra ....... §§§
.... E foi assim

12. E a terra vicejou ... § ... relva ... §
.... erva que gera semente ... § ... de sua espécie ...... §§
.... e árvore que dá fruto ... § ... com a semente dentro .... §
.... de sua espécie ............ §§§
.... E Deus viu ... § ... que era bom

13. E foi tarde e foi manhã .... §
.... dia terceiro

14. E Deus disse ... § ... sejam luminárias .... §
.... no arco do céufogoágua ....... §§
.... para dividir .... §§ .... entre o dia ... § ... e a noite ..... §§§
.... E para ser quais sinais ... § ... para as estações .... §§
.... e para os dias ... § ... e os anos

15. E que sejam luminárias ... § ... no arco do céufogoágua .... §§
.... para iluminar ... § ... a terra ........ §§§
.... E foi assim

16. E Deus fez ..... §§ ..... os dias luzeiros ... § ... grandes ..... §§§
.... O luzeiro maior ... § ... para a regência do dia ..... §§
.... e o luzeiro menor ... § ... para a regência da noite ...... §§
.... e as estrelas

17. E Deus ... § ... o deu ... § ... ao arco do céufogoágua ..... §§§
.... Para iluminar ... § ... a terra

18. E para reinar ... § ... sobre o dia e sobre a noite ...... §§
.... e para dividir ...... §§
.... entre a luz ... § ... e a treva ......... §§§
.... E Deus viu ... § ... que era bom

19. E foi tarde e foi manhã .... §
.... dia quarto


(tradução: Haroldo de Campos)


(In: Bere'shith: A cena da origem)

Terça-feira, Outubro 09, 2007

Bere'shith: A cena da origem I

I


1. No começar ... § ... Deus criando .......... §§§
... O fogoágua .... § .... e a terra

2. E a terra ... § ... era lodo ... § ... torvo .... §§
... e a treva ... § ... sobre o rosto do abismo ....... §§§
... E o sopro-Deus ........ §§
... revoa ... § ... sobre o rosto da água

3. E Deus disse ... § ... seja luz ....... §§§
... E foi luz

4. E Deus viu ... § ... que a luz ... § ... era boa ....... §§§
... E Deus dividiu ...... §§
... entre a luz ... § ... e a treva

5. E Deus chamou à luz ... § ... dia ...... §§
... e à treva ... § ... chamou noite ........ §§§
... E foi tarde e foi manhã .... §
... dia um

6. E Deus disse ........ §§
... seja uma arcada ... § ... no seio das águas ....... §§§
... E que divida ..... §§
... entre água ... § ... e água

7. E Deus fez ... § ... a arcada ...... §§
... e dividiu ... § ... entre água ... § ... sob-a-arcada ..... §§
... e água ...... § ... sobre-a-arcada ....... §§§
... E foi assim

8. E Deus chamou ... § ... à arcada ... § ... céufogoágua ..... §§§
... E foi tarde e foi manhã ... §
... dia segundo


____


CONVENÇÃO DE LEITURA:

§§§ 'athnáh (descanso) - .... o principal disjuntivo, correspondente
................................. à cesura;
divide o versículo em dois
................................. hemistíquios (não necessariamente
................................. iguais); pausa (espacejamento) maior

§§ selgotá (racimo) - ........ acentos importantes
... shalshéleth (cadeia) ..... pausas menores em relação à anterior
... zaqef qaton
... (elevador pequeno)
... zaqef gadol
... (elevador grande)

§ todos os demais disjuntivos - ... acentos menos importantes
..(num total de treze) .............. pausas mínimas



(tradução: Haroldo de Campos)


(In: Bere'shith: A cena da origem)

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Assinatura Acontecimento Contexto

Todo signo lingüístico ou não-lingüístico, falado ou escrito (no sentido corrente dessa oposição), em pequena ou grande escala, pode ser citado, posto entre aspas; por isso ele pode romper com todo o contexto dado, engendrar ao infinito novos contextos, de modo absolutamente não-saturável. Isso supõe não que a marca valha fora do contexto mas, ao contrário, que só existam contextos sem nenhum centro absoluto de ancoragem.


(Jacques Derrida. In: Limited Inc.)

Sábado, Outubro 06, 2007

A influência da engenharia nas artes nacionais

O que faz viver, isto é, não subsistir, nas sociedades? A antitradição, a tendência para não permanecer. E a tendência para não permanecer tem só uma forma - o apego ao não passado, ao não presente, e ao não futuro. Isto quer dizer o apego ao abstrato e ao ideal em que não se confia. Por isso a força que conserva as sociedades é a inteligência de abstração e imaginação.

A inteligência de abstração e imaginação tem duas formas - a matemática e a crítica. A matemática abstrai de toda a experiência, exceto da essência da experiência; o único critério da verdadeira objetividade que temos é o critério da matematização. A crítica abstrai de toda a experiência exceto de ela ser nossa; o único critério de verdadeira subjetividade que temos é o da confrontação, não das impressões com as cousas, mas das cousas com as nossas impressões.

Deve compreender-se que entendo por crítica toda a atividade crítica: a crítica, no sentido em que emprego a palavra, inclui toda a forma de atividade que ou não aceita, ou quer substituir a objetividade da experiência. Assim, a arte é uma forma de crítica, porque fazer arte é confessar que a vida ou não presta, ou não chega. Assim, também, a parte por assim dizer dogmática da religião (não a sua parte social nem sua parte metafísica) é uma forma de crítica, porque crer numa cousa sem ser com uma razão, embora aparente (como acontece na metafísica, que procura explicar), não sendo essa coisa um elemento da experiência (objetiva), é querer substituir essa experiência...

A crítica é, em suma, todo o artifício que é feito com inteligência, e sem fim social nenhum. Desde que sirva um ideal em vez de uma impressão, a crítica é falsa como crítica, não é crítica, em suma, mas só opinião.


(Álvaro de Campos. In: Idéias Estéticas da Arte)

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Arthur Rimbaud IV

BABAQUICES

I

O COMILÃO

Casquete
De fera,
Cacete
Que encera,

Pivete
Godera
Bufete
Na espera

E mete
Porrete
Na pera,

Derrete
Croquete:
Pudera!


III

O COCHEIRO BÊBADO

Nacre
Sai,
Lacre
Vai;

Acre
Guai:
Fiacre
Cai!

Dama
Tombo:
Lombo

Preme
- Clama!
Geme.


(tradução: Ivo Barroso)


(Arthur Rimbaud. In: Poesia Completa)

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

Arthur Rimbaud III

A ESTRELA CHOROU ROSA...


A estrela chorou rosa ao céu alto de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o homem sangrou negro o altar de teus quadris.


(tradução: Augusto de Campos)


(Arthur Rimbaud. In: Rimbaud Livre)

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

Arthur Rimbaud II

A MALICIOSA


Na escura sala de jantar, que recendia
Um forte odor a fruta e a verniz de madeira,
Peguei um prato de não sei qual iguaria
Belga, e me esparramei numa enorme cadeira.

Escutava o relógio, ao comer - muito pensativo
E feliz - quando a porta abrindo em baforada
Vem da cozinha a criada e, sem qualquer motivo,
- Xale frouxo, excitante e muito bem penteada;

A passear um dedinho em sua veludosa
Face, que era um pêssego branco e cor-de-rosa,
E a fazer um muxoxo infantil, que era um gosto, -

Arranjar ao meu lado o prato, dando ensejo,
E me diz: - claro, eu sei, para ganhar um beijo -
Baixinho: "Vê, peguei uma friage no rosto..."


(tradução: Ivo Barroso)


(Arthur Rimbaud. In: Poesia Completa)